21 de agosto 2026
Recusa alimentar, vômitos, dificuldade para engolir e sensação de que a comida ficou presa podem ser sinais de esofagite eosinofílica em crianças. Como as manifestações mudam conforme a idade, a doença pode ser confundida com refluxo, seletividade alimentar ou outros problemas digestivos.
A esofagite eosinofílica é uma doença inflamatória crônica que afeta o esôfago, o tubo responsável por conduzir os alimentos da boca até o estômago. A inflamação está relacionada ao acúmulo de eosinófilos, células do sistema imunológico que participam de processos alérgicos.
Alimentos estão entre os principais desencadeantes, mas a relação não costuma ser tão imediata quanto nas alergias alimentares clássicas. Por isso, descobrir quais fatores estão envolvidos pode exigir acompanhamento conjunto entre alergista, gastroenterologista pediátrico e nutricionista.
Neste artigo, a Dra. Lara Novaes, Pediatra, Alergista e Imunologista, explica quais são os sintomas, como o diagnóstico é confirmado e quais tratamentos podem controlar a esofagite eosinofílica na infância.
A esofagite eosinofílica, também conhecida pela sigla EoE, é uma condição imunológica que provoca inflamação persistente no revestimento do esôfago.
Os eosinófilos são células de defesa que podem ser encontradas normalmente em outras partes do sistema digestivo. No esôfago saudável, porém, essas células geralmente não estão presentes em quantidade significativa.
Na EoE, o acúmulo de eosinófilos provoca inflamação. Sem o tratamento adequado, esse processo pode causar alterações na estrutura do esôfago, como cicatrizes, perda de elasticidade e estreitamentos.
Essas mudanças dificultam a passagem dos alimentos e aumentam o risco de impactação alimentar, situação em que a comida fica presa no esôfago.
A causa envolve uma combinação de predisposição genética, alterações na resposta imunológica e exposição a determinados desencadeantes.
Em muitas crianças, a inflamação está relacionada a proteínas presentes nos alimentos. Entre os grupos mais frequentemente envolvidos estão:
Isso não significa que todos esses alimentos devam ser retirados da alimentação. Uma criança pode reagir a apenas um deles, a mais de um ou apresentar um padrão diferente.
Alérgenos ambientais, como pólens, ácaros, mofo e partículas de animais, também podem influenciar a doença em alguns pacientes. Ainda assim, a participação desses fatores continua sendo estudada e varia de uma criança para outra.
A esofagite eosinofílica pode ocorrer em qualquer idade, mas algumas características aparecem com maior frequência:
Ter uma dessas condições não significa que a criança desenvolverá EoE. Entretanto, a presença de sintomas digestivos ou alimentares persistentes merece mais atenção quando existe um histórico alérgico.
As manifestações variam de acordo com a idade e com a capacidade da criança de explicar o que sente.
Os sinais podem incluir:
Nessa fase, a criança pode não conseguir relatar dor ou dificuldade para engolir. A mudança no comportamento durante as refeições costuma ser uma pista importante.
Com o aumento da idade, podem aparecer:
Algumas crianças adaptam silenciosamente a maneira de comer e não percebem que existe um problema.
Crianças com esofagite eosinofílica podem criar estratégias para facilitar a passagem dos alimentos.
É importante observar se a criança:
Esses comportamentos podem ser interpretados como seletividade ou falta de apetite. Quando persistem, porém, podem indicar que comer provoca desconforto.
Não. O refluxo gastroesofágico acontece quando o conteúdo do estômago retorna para o esôfago. Na esofagite eosinofílica, existe uma inflamação imunológica caracterizada pelo acúmulo de eosinófilos.
As duas condições podem causar sintomas semelhantes:
Também é possível que a criança apresente refluxo e EoE ao mesmo tempo.
A esofagite eosinofílica deve ser considerada principalmente quando os sintomas persistem, não respondem como esperado ao tratamento para refluxo ou são acompanhados de dificuldade para engolir e sensação de alimento preso.
A esofagite eosinofílica é uma doença imunológica frequentemente desencadeada por alimentos, mas não funciona exatamente como uma alergia alimentar imediata.
Na alergia mediada por IgE, os sintomas costumam surgir minutos após o consumo e podem incluir urticária, inchaço, vômitos, chiado e anafilaxia.
Na EoE, a inflamação costuma se desenvolver de maneira mais lenta. A criança pode consumir o alimento durante dias sem apresentar uma reação imediatamente perceptível.
| Característica | Alergia alimentar imediata | Esofagite eosinofílica |
| Início dos sintomas | Geralmente em minutos ou poucas horas | Pode ocorrer de forma lenta e persistente |
| Manifestações | Urticária, inchaço, vômitos, falta de ar | Recusa alimentar, refluxo, dificuldade para engolir |
| Anafilaxia | Pode ocorrer | Não é uma manifestação típica da EoE |
| Diagnóstico | Histórico, testes de IgE e, quando indicado, provocação oral | Endoscopia com biópsias do esôfago |
| Avaliação da resposta | Ausência de reações após evitar o alimento | Sintomas, endoscopia e análise das biópsias |
Uma criança pode apresentar EoE e uma alergia alimentar imediata ao mesmo tempo. Nessa situação, os cuidados para cada condição precisam ser definidos separadamente.
O diagnóstico começa pela análise dos sintomas, do comportamento alimentar, do crescimento e do histórico alérgico da criança.
O médico pode perguntar:
Entretanto, os sintomas isolados não confirmam a doença.
A confirmação da esofagite eosinofílica exige uma endoscopia digestiva alta com coleta de fragmentos do esôfago.
Durante o procedimento, a criança recebe sedação ou anestesia para permanecer confortável. Um aparelho flexível com uma câmera é introduzido pela boca para observar o esôfago, o estômago e o início do intestino.
O médico pode encontrar alterações como:
Entretanto, o esôfago pode parecer normal durante o exame. Por isso, as biópsias são indispensáveis mesmo quando não existem alterações visíveis.
Os fragmentos são analisados por um patologista. Entre os critérios utilizados está a presença de pelo menos 15 eosinófilos por campo de grande aumento, associada a sintomas de disfunção do esôfago e à exclusão de outras causas possíveis.
Nem sempre.
Testes cutâneos e exames de IgE específica são úteis para investigar alergias alimentares imediatas e outras doenças alérgicas que podem coexistir com a EoE. Entretanto, eles não identificam com segurança quais alimentos estão provocando a inflamação eosinofílica no esôfago.
Isso acontece porque a EoE costuma envolver mecanismos imunológicos diferentes daqueles avaliados pelos testes tradicionais de IgE.
Um exame positivo não significa que o alimento deva ser automaticamente retirado. Da mesma forma, um teste negativo não exclui sua participação na EoE.
A avaliação com o alergista ajuda a:
Leia também: Teste Alérgico em Crianças: como é feito, quando indicar e o que esperar.
O tratamento busca controlar a inflamação, melhorar a alimentação, favorecer o crescimento e prevenir o estreitamento do esôfago.
As principais opções incluem:
A escolha depende da idade, da intensidade dos sintomas, das alterações observadas na endoscopia, da presença de outras doenças alérgicas e das possibilidades da família.
Os inibidores da bomba de prótons, conhecidos como IBPs, reduzem a produção de ácido no estômago.
Além de controlar sintomas relacionados ao refluxo, esses medicamentos podem reduzir a inflamação do esôfago em parte dos pacientes com EoE.
A dose e o tempo de uso devem ser definidos pelo médico. A resposta não deve ser avaliada apenas pela melhora dos sintomas, pois a inflamação pode continuar presente mesmo quando a criança parece estar melhor.
Medicamentos como budesonida ou fluticasona podem ser preparados ou administrados de maneira que sejam engolidos e entrem em contato com o revestimento do esôfago.
Eles atuam localmente para reduzir a inflamação. Apesar de alguns desses medicamentos também serem usados no tratamento da asma, a técnica para EoE é diferente e deve ser orientada pela equipe responsável.
Não se deve iniciar, adaptar ou interromper esse tratamento sem acompanhamento médico.
Na dieta de eliminação, um ou mais grupos alimentares são retirados por um período para verificar se a inflamação diminui.
Atualmente, pode-se começar por uma estratégia menos restritiva, retirando inicialmente apenas um ou dois grupos frequentemente relacionados à doença. Se não houver resposta, o plano pode ser ampliado.
Quando a inflamação entra em remissão, os alimentos podem ser reintroduzidos de maneira planejada. Em geral, cada etapa precisa ser acompanhada por nova endoscopia com biópsias para verificar se o alimento provocou o retorno da inflamação.
Os sintomas, isoladamente, não são suficientes para confirmar que a dieta funcionou.
Dietas muito restritivas podem causar:
Leite, trigo, ovo e soja aparecem em grande variedade de preparações e fornecem nutrientes importantes durante o crescimento.
A dieta precisa ser acompanhada por profissionais que possam orientar substituições adequadas, conferir rótulos e avaliar a evolução nutricional.
A dieta elementar utiliza fórmulas compostas por aminoácidos, sem proteínas alimentares inteiras capazes de desencadear a inflamação.
Ela pode controlar a doença, mas é bastante restritiva e pode ser difícil de manter. Por esse motivo, costuma ser reservada para situações específicas, como crianças com múltiplos desencadeantes ou que não responderam a outras estratégias.
Algumas crianças pequenas podem apresentar dificuldade para consumir a quantidade necessária da fórmula e precisar de suporte adicional para garantir a nutrição.
Medicamentos biológicos atuam em vias específicas do processo inflamatório.
O dupilumabe pode ser considerado em pacientes selecionados, especialmente quando a doença não respondeu adequadamente às opções iniciais ou quando existem outras condições alérgicas importantes.
A indicação depende da idade, do peso, da gravidade, dos tratamentos anteriores e das normas regulatórias vigentes. Os benefícios e possíveis efeitos adversos devem ser discutidos com a equipe médica.
A dilatação pode ser indicada quando a inflamação crônica provocou estreitamento importante do esôfago.
O procedimento amplia a passagem para facilitar a alimentação e reduzir o risco de a comida ficar presa. Entretanto, a dilatação não trata a causa da inflamação.
Mesmo quando o procedimento é necessário, o tratamento anti-inflamatório com dieta ou medicamentos deve continuar.
A melhora da dor, dos vômitos ou da dificuldade para engolir é importante, mas não garante que a inflamação tenha desaparecido.
Algumas crianças aprendem a evitar alimentos difíceis e podem relatar menos sintomas mesmo com a doença ativa.
A avaliação da resposta pode incluir:
Após a remissão, geralmente é necessário manter alguma forma de tratamento, pois a EoE é uma doença crônica.
Sim. Quando comer se torna doloroso ou difícil durante muito tempo, a criança pode desenvolver aversão, medo de engasgar ou preferência por poucas texturas.
Mesmo depois do controle da inflamação, alguns comportamentos podem permanecer.
A terapia alimentar pode ajudar a criança a:
Esse acompanhamento pode envolver fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, nutricionista e outros profissionais, conforme as necessidades da criança.
Sem tratamento adequado, a inflamação pode causar:
O diagnóstico e o controle precoce ajudam a reduzir esses riscos.
A impactação alimentar acontece quando um pedaço de comida fica retido no esôfago.
A criança pode apresentar:
Não se deve oferecer mais alimentos, grandes quantidades de água ou tentar empurrar a comida com outra preparação.
Quando a criança não consegue engolir a própria saliva ou o alimento não passa, é necessário procurar atendimento de emergência. Em alguns casos, uma endoscopia é necessária para remover a obstrução.
A criança deve ser avaliada quando apresenta:
Quanto mais cedo a causa for identificada, maiores são as possibilidades de controlar a inflamação antes que surjam alterações estruturais.
Procure atendimento imediatamente quando a criança:
A dificuldade respiratória pode indicar que o alimento entrou nas vias aéreas, o que também exige atendimento urgente.
A EoE é considerada uma doença crônica. Os tratamentos podem controlar a inflamação, aliviar os sintomas e prevenir complicações, mas o acompanhamento costuma ser prolongado.
Sim. Os testes tradicionais de alergia não identificam com segurança os alimentos que desencadeiam a inflamação da EoE.
A anafilaxia não é uma manifestação típica da esofagite eosinofílica. Entretanto, a criança pode apresentar uma alergia alimentar imediata associada, que possui risco próprio de anafilaxia.
Não. A esofagite eosinofílica não é provocada por vírus ou bactérias e não pode ser transmitida para outra pessoa.
Não são a mesma condição. A intolerância à lactose ocorre pela dificuldade de digerir o açúcar do leite. Na EoE, proteínas do leite podem atuar como desencadeantes imunológicos em alguns pacientes.
Não. A doença celíaca é uma reação imunológica ao glúten que afeta principalmente o intestino delgado. A esofagite eosinofílica provoca inflamação no esôfago e pode ser desencadeada por diferentes alimentos.
Alguns pacientes respondem à retirada do leite, mas isso não acontece em todos os casos. A estratégia deve ser definida e monitorada pela equipe médica.
Não necessariamente. Os sintomas nem sempre acompanham o grau de inflamação. Por isso, endoscopias e biópsias podem ser necessárias durante o acompanhamento.
Com diagnóstico e tratamento adequados, muitas crianças apresentam bom controle e conseguem manter uma dieta variada. As restrições devem ser limitadas aos alimentos realmente necessários.
Pode, principalmente quando provoca recusa alimentar, vômitos, dieta muito restritiva ou dificuldade para absorver uma quantidade adequada de nutrientes. Peso e altura precisam ser acompanhados.
A esofagite eosinofílica em crianças exige uma avaliação que considere os sintomas digestivos, o comportamento alimentar, o crescimento e a presença de outras doenças alérgicas.
A Dra. Lara Novaes Teixeira é Pediatra, Alergista e Imunologista pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo e especialista em Alergia e Imunologia pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. Também atua como médica colaboradora do setor de Imunologia do Departamento de Pediatria da EPM-UNIFESP.
Sua formação permite avaliar de maneira integrada a saúde infantil e os aspectos alérgicos relacionados à doença, em conjunto com o gastroenterologista pediátrico e outros profissionais envolvidos no tratamento.
Conheça a formação e a atuação da Dra. Lara Novaes.
Recusa alimentar, refluxo persistente e dificuldade para engolir não devem ser considerados apenas uma fase da infância quando se repetem ou prejudicam o crescimento.
A confirmação da esofagite eosinofílica depende da endoscopia com biópsias. Depois do diagnóstico, o tratamento individualizado pode controlar a inflamação, melhorar a alimentação e reduzir o risco de estreitamento do esôfago e impactação alimentar.
Especialista em Alergia, Imunologia e Pediatria, com atendimento no bairro Bela vista, em São Paulo e no bairro Santo Antônio, em São Caetano do Sul
AGENDE VIA WHATSAPP